Meu carro, seu carro

25 fev

Eu me lembro que queria loucamente completar 18 anos para poder dirigir. Tirar carteira de motorista foi emoção tão grande quanto passar no vestibular. Quando eu ganhei um carro, o mundo enfim era meu. Achava até difícil explicar em palavras a minha sensação de liberdade e onipotência quando eu ligava o meu Ford Ka, carinhosamente apelidado de besouro – bisôro, porque eu sou de Minas.

Desde o primeiro carro da história, o Model T de 1908 também da Ford, carros vêm sendo vendidos pra gente como símbolos de status e independência. Uma cápsula mágica, às vezes com som e ar condicionado, que você usa para ir e vir de qualquer lugar a hora que você quiser. Certo? Claro que não.

Bastam 5 minutos observando o trânsito pra gente perceber que todo mundo que tá ali paga uma pequena fortuna pro carro ficar parado – no trânsito ou na garagem – mais de 20 horas por dia.

Daí eu me pergunto: isso faz sentido, Brasil?

Assim que me mudei pra São Paulo ficou ainda mais claro que carro na enorme maioria das vezes é sinônimo de engarrafamento e muita despesa. Seguro, manutenção, IPVA, limpeza, estacionamento, combustível. Fora que carro, ao contrário do que muita gente acha, não é investimento. Enquanto usa, além de pagar todas essas despesas, você também arca com a desvalorização dele.

Por que então não transformar todo esse custo fixo em variável, poluindo menos e aliviando o trânsito da cidade? Afinal, a gente precisa do cd ou da música? Do dvd ou do filme? Do carro ou do deslocamento?

Uma estimativa da American Automobile Association diz que, em média, americanos e europeus gastam com o carro 18% do que ganham. Achei isso tão deprimente! Mais ainda quando você sabe que esse valor é maior que o que eles gastam com roupa, saúde e entretenimento JUNTOS! Me conta que tipo de vida é essa?

Não achei números brasileiros para comparar, mas não fica muito difícil ter uma ideia de quanto dinheiro alimenta a indústria automobilística se seguimos o raciocínio do Fábio Portela nesse post. Olha aí se você se identifica.

Dados ainda mais tristes? Li aqui que o cidadão paulistano gasta todos os dias nada menos que 2 horas e 40 minutos no trânsito. São 973 horas em um ano. Em uma vida, isso significa 7 anos. SE-TE A-NOS.

Ainda não tá satisfeito? Tem mais: Em junho passado o Brasil bateu seu recorde em vendas de automóveis: 300 mil novos veículos entraram em circulação. Nesse mesmo mês, mais um recorde: maior índice de congestionamento. De todas as vias de São Paulo, 35,4% ficaram completamente paradas. ‘Se formassem uma fila contínua, os carros ocupariam 295 km.’, conta essa reportagem.

COMO ASSIM tanta gente ainda não saiu dessa viagem errada? COMO PODE até hoje todo mundo viver o trânsito diariamente, chegar em casa, ligar a tv e acreditar em propagandas ridículas como essa?


Aham, Fiat, senta lá.

Eu já devo ter contado isso aqui mas vou repetir: não sou e nunca fui comunista, só tenho a sorte de ser inteligente. Pessoas também incomodadas com o trânsito, porém muito mais inteligentes do que eu, tiveram uma brilhante ideia: Por que não compartilhamos nossos carros?

Ao invés de cada criatura ter sua própria cápsula geradora de despesa e dor de cabeça, poderíamos todos ter a comodidade que o carro oferece sem todas as milhares de desvantagens que vêm no pacote! E assim foi criada a Zipcar, a maior empresa de carros compartilhados do mundo.

E depois dela várias outras vieram (Roubei daqui)

- Graziela, menina! Já ouvi falar desse esquema algumas várias vezes, mas até hoje não entendi bem como funciona.

Eu até contaria com minhas próprias palavras, mas a explicação do Hélio Mattar tá tão boa que eu vou copiar direto:

‘Tão simples quanto eficiente, o carro compartilhado fica disponível em estacionamentos estrategicamente localizados na cidade e pode ser alugado e devolvido em qualquer um deles. O usuário faz um cadastro, paga uma mensalidade ou anuidade, e recebe um cartão magnético que lhe dá acesso ao serviço. Passa o cartão tanto na retirada como na entrega do veículo e paga por hora ou quilômetro rodado. A conta é fechada mensalmente e debitada em cartão de crédito. Impostos, combustível, seguro e manutenção do carro correm por conta da locadora. O sistema funciona integrado com os outros modais de transporte, e os estacionamentos ficam próximos a estações de trem, metrô, bicicletários, terminais de barco e ônibus.’

Se ainda não ficou muito claro, a Zipcar fez um vídeo for dummies. Recomendo!


Só não vale ter preconceito com a pegada hipster.

Daí você pensou: mas isso jamais funcionaria no Brasil! Acha mesmo? Apresento-lhes Zazcar, a primeira empresa de carros compartilhados do país da América Latina!

Há quase dois anos São Paulo já conta com um sistema de carros compartilhados nos mesmos moldes do Zipcar. Mesmo com uma frota ainda bem pequena, – atualmente são 13 carros que atendem 300 pessoas – ninguém duvida que a procura por serviços como este não vai parar de crescer daqui pra frente.

No site eles disponibilizaram uma tabela legal que compara os custos de um carro compartilhado com os custos do taxi e de um carro alugado. O site traz também todas as respostas para as dúvidas mais frequentes.

Carros compartilhados fazem bem pro bolso, pro trânsito, pra saúde e pro meio ambiente mas ainda assim nenhuma dessas razões são usadas nas peças publicitárias da Zipcar.

A empresa, que de boba não tem nada, entendeu desde cedo o poder que os anúncios de carro têm sobre os pobres mortais e vem seguindo a receita à risca: os mesmos estímulos que as montadoras usam para nos fazer querer comprar são usados pela Zipcar para nos fazer querer compartilhar.


As peças são sempre objetivas e bem humoradas

O propósito é difundir a ideia de que quem usa sistemas de carro compartilhado é muito mais moderno, informado, inteligente e bem resolvido do que aquele tiozão que ainda tá achando bonito ir pro escritório montado na sua SUV.

né?

O mais legal é que essa estratégia vem funcionando tão bem que a Zipcar não só tem clientes satisfeitos divulgando a empresa aos quatro ventos, mas clientes que se identificam com a marca e se sentem parte de uma comunidade, exatamente como clientes da Harley-Davidson ou da Ferrari, por exemplo.

Isso significa o início de uma mudança super importante nos nossos valores que pode – e deve! – levar a um futuro não muito distante, onde possuir um carro não seja sinônimo de mais poder, status ou liberdade pra ninguém.

Pra quem adora dados, seguem mais alguns: Cada carro compartilhado significa 8 carros a menos na rua. Pessoas que se desfizeram dos seus carros para aderir ao sistema da Zipcar passaram a economizar em média 600 dólares todo mês e reduziram suas emissões de CO2 pela METADE.

Depois de tanto falar de trânsito, vou aproveitar pra contar sobre um projeto maravilhoso, o Cidades para Pessoas.

A jornalista Natália Garcia selecionou 12 cidades pelo mundo e vai morar 1 mês em cada uma delas procurando em todas as esquinas respostas para a seguinte pergunta: Como tornar uma cidade melhor para seus habitantes?

Olha só a Natália explicando o projeto

Os detalhes estão todos aqui e você pode colaborar com essa história! Através do site de patrocínio coletivo – nem ideia de como se traduz crowdfunding! – Catarse.me, qualquer um doa qualquer quantia pra ver qualquer projeto querido virar realidade.

Sites como este estão pipocando aos montes nos últimos meses e isso tudo tá me deixando tãaaao feliz! Mas isso já é assunto para um outro post… ;]

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Mudando o jeito de se fazer mudança

2 fev

Tenho fortes suspeitas de que Spencer Brown leu o Cradle-to-Cradle antes de fundar a Rent a Green Box. A empresa que revolucionou nos mínimos detalhes a maneira de se fazer mudança já apareceu lá em cima no ranking das mais verdes do mundo e desde 2005 não pára de crescer.

Brown conta que a ideia surgiu quando ele mesmo teve que mudar de escritório: gastou 800 dólares em um monte de caixas de papelão que foram usadas no máximo duas vezes e depois de tentar se livrar delas de todas as maneiras, acabou tendo que apelar para… o lixo mesmo.

Veio então a vontade de propor um novo modelo: mais inteligente, mais econômico e livre de desperdícios.

A primeira solução criada por ele foi a Recopack, uma caixa leve e muito mais resistente, que possui alças para facilitar a vida e um sistema de fechamento que dispensa todos aqueles rolos de fita adesiva. Feita a partir de diversos objetos plásticos recolhidos dos aterros, ela aguenta o tranco de aproximadamente 400 mudanças e quando fica muito desgastada, passa pelo mesmo processo de reciclagem e volta nova em folha.

A Recopack é verde e feita de embalagens exatamente como estas.

Enquanto caixas de papelão demandam o corte de árvores, têm uma vida super curta e terminam no lixo, as Recopacks contribuem na diminuição do volume de plástico nos aterros e, como são 100% recicláveis, nunca vão causar problemas por lá. Quando comparamos as duas caixas, o ganho fica óbvio: cada 100 Recopacks alugadas significam o reaproveitamento de mais de 200 kgs de plástico, além da economia de 50 galões de gasolina, 300 galões de água, 150 kgs de papelão e 3 árvores.

Mas Spencer Brown não parou por aí. Depois da caixa, ele criou vários outros objetos para substituir os que costumam ser utilizados nas mudanças de todo dia. Todas as criações seguem a mesma lógica das Recopacks: são feitas a partir de materiais retirados do lixo e funcionam como nutrientes, bem daquele jeitinho que o Mc Donough e o Braungart explicaram. Olha só alguns bons exemplos.

O Geami foi criado para substituir o famoso plástico bolha e protege lâmpadas, louças, taças e afins. Todinho feito a partir de papelão reciclado, ele é produzido na hora, dentro do próprio caminhão de acordo com a demanda do cliente.

Para a sua curiosidade, ‘geami’ significa amigo da terra

Os Recocubes além de exercerem a mesma função daqueles malditos trocinhos de isopor – alguém sabe o nome daquilo? – funcionam como adubo para o jardim! Depois de usá-los o cliente escolhe se manda de volta para que eles sejam usados em outras mudanças ou simplesmente os enterra, joga uma água por cima e eles viram comidinha de planta.

Os Recocubes são enriquecidos com vitaminas!

Já os Expandos são feitos a partir de diversas embalagens de papel – pense caixas de cereal – e podem proteger os objetos mais frágeis. Para se ter uma ideia, eles dizem no site que enviaram uma dúzia de ovos mergulhados em Expandos da Califórnia para Nova York e os 12 chegaram lá inteirinhos!

Depois de gastos, Expandos também são reciclados e voltam como novos.

Há ainda as etiquetas! Depois de usá-las você pode simplesmente jogá-las na privada. As bichinhas vão se dissolver produzindo bolhas porque são feitas de bicarbonatos e essências não tóxicas que garantem propriedades limpantes! Amei pra toda a vida.

Abraços e agradecimentos para a fofa da Laura Viana que me apresentou a Rent a Green Box! O site, super completo, vale muito a visita e traz um monte de vídeos, explicações e outros produtos. Tem até pallet feita de fraldas por lá!

Só faltou contar aqui que a empresa entrega e recolhe todos esses produtos lindos em veículos movidos a biocombustível! <3

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De berço a berço

23 nov

Só agora, duas semanas depois do encontro mais incrível da vida, eu enfim consegui parar para reunir algumas linhas sobre a minha palestra favorita do TEDx Amazônia.

As palavras do Michael Braungart, químico alemão autor do livro ‘Cradle to Cradle‘, funcionaram como um tapa na minha cara e, sem exageros, mudaram a minha forma de enxergar o mundo. A ideia dele é daquelas que por serem tão simples, são geniais: ‘Não adianta ser menos mau, é preciso ser bom.

Se andamos menos de carro, estamos fazendo menos mal. Se separamos nosso lixo para a reciclagem, estamos fazendo menos mal. A gente vive tão imerso em uma eterna sensação de culpa, concentrados em minimizar nosso impacto no planeta, que nem se dá conta de que é sim possível repensar a dinâmica atual e criar novos processos de produção e consumo coerentes com as leis da própria natureza.


‘It’s not about green design, it’s about good design’

Assim como a gente, Braungart odeia lixo. Odeia tanto que propõe um mundo livre dele. Pense por um minuto que nós, seres humanos, somos a única espécie que produz lixo. Esqueça a ideia de evitar o lixo, diminuir o lixo, reciclar o lixo. Pense em um mundo SEM lixo. Enxergue as coisas a partir de agora como nutrientes. Materiais que já carregam, em si mesmos, benefícios para os processos seguintes.

‘Enquanto não desistirmos dessa ideia de lixo, seremos pessoas demais nesse planeta. Se ao invés disso aprendermos a criar nutrientes, 10 bilhões de pessoas não representarão um problema.’


Braungart e seu sotaque fofo :]

Por que então não desenvolvemos um processo produtivo em que maior produção signifique mais benefícios para o meio ambiente? Pode soar impossível mas é exatamente assim que a natureza funciona.

William McDonough, que escreveu ‘Cradle to Cradle’ junto com Braungart, dá um ótimo exemplo no vídeo abaixo: ‘Imagine projetar algo que produza oxigênio, absorva gás carbônico, fixe nitrogênio, destile água, use o sol como combustível, produza açúcares complexos e alimento, crie microclimas, se adapte às variações climáticas e se auto-replique.’ Não é um projeto perfeito? Mais árvores não prejudicam uma floresta. Muito pelo contrário! Mais árvores significam mais diversidade, mais equilíbrio e mais qualidade de vida para todos os seres.

A natureza criou processos perfeitos que são resultado de bilhões de anos de evolução. Ao invés de a enxergarmos como um obstáculo ao desenvolvimento precisamos aprender com ela esse design holístico, onde a interdependência de todas as partes é sempre levada em conta.

A criação de qualquer produto precisa ter isso em foco desde o primeiro estágio, na própria intenção do projeto. Todo design deve ser o resultado dessa intenção, sempre coerente com o sistema em que ele está inserido.

Eu, se fosse você, não perderia essa palestra:


‘…because the news is the news of abundance and not the news of limits’

Um exemplo desse conceito na prática? O próprio livro! O primeiro capítulo do ‘Cradle to Cradle’ se chama ‘This book is not a tree’ porque de fato o livro não é feito de papel. Todas as páginas foram impressas em uma resina plástica desenhada para ter o visual e o toque de um papel de primeira qualidade.

Além de dispensar a derrubada de árvores, esse livro é à prova d’água e pode ser inteiramente reciclado, transformando-se em outros vários produtos sem que haja qualquer perda na qualidade do material. Não é lindo demais?

conteúdo e formato que se reforçam em perfeita harmonia

Em um sistema de produção inteligente, todos os materiais devem ter a capacidade de fluir dentro de seu metabolismo, seja ele biológico ou técnico.

No biológico, os materiais são quebrados pelos microorganismos em processo de compostagem e se transformam em nutrientes. Roupas e embalagens são exemplos de produtos que devem ser desenvolvidos para se encaixarem nesse ciclo.

Já no técnico, Braungart e McDonough propõem serviços no lugar de produtos. Não existe mais comprar uma máquina de lavar, por exemplo, mas sim comprar o seu serviço.

O material deve continuar sendo propriedade do fabricante e voltar para ele depois de um determinado tempo de uso. Assim, todo o material de uma máquina velha volta para a fábrica e pode ser aproveitado na produção de uma nova. O fluxo é criado artificialmente e os produtos circulam mantendo o nível da qualidade constante. Para o bom funcionamento desses ciclos é fundamental que todos os materiais sejam escolhidos cuidadosamente.

No design de berço a berço não existe túmulo

A fabricante de carpetes Desso é um exemplo do conceito ‘Cradle to Cradle’ posto em prática: além dos produtos já terem sido concebidos para a desmontagem, materiais tóxicos foram substituídos por outros não nocivos à saúde ou ao meio ambiente, capazes de ser verdadeiramente reciclados, transformando-se em nutrientes técnicos para a manutenção do ciclo.

Para continuar o assunto, vale muito ler o que o blog Sustentável é Pouco já explorou sobre a temática desse livro nos posts ‘Um novo modelo produtivo‘ e ‘Nosso sistema é burro – precisamos de um outro‘.

Vou terminar mandando um beijo enorme para a Lívia Ascava, o Denis Russo e o Helder Araújo. Eu não poderia ser mais grata por ter vivido a experiência do TEDx Amazônia já que, como dizia nosso querido Einstein, ‘uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original.’ Ainda bem.

 

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Waste Land

28 out

Estreia amanhã em Nova York o premiado filme Waste Land, que conta um pouco sobre o projeto que o Vik Muniz realiza com as pessoas do Jardim Gramacho no Rio.

O filme acompanha todo o processo do artista que tem como principal objetivo usar o mesmo lixo com que os catadores trabalham diariamente para melhorar a dura realidade em que eles vivem.

A ideia, além de linda, é super bem costurada: Vik fotografa algumas dessas pessoas e recria as imagens com materiais encontrados no próprio aterro. Depois disso, fotografa as obras concluídas e reverte o que arrecada com a venda das fotos para melhorar a situação de todos que trabalham ali.

Esse assunto do lixo mexe demais comigo, e eu estou tão ansiosa pra ver o filme que já assisti ao trailer inúmeras vezes e me arrepiei em todas elas.

Vale dizer que o Jardim Gramacho é o maior aterro do mundo – recebe cerca de 7 mil toneladas de lixo diariamente – e também foi cenário do maravilhoso Estamira, filme sobre o qual eu comentei nesse post.

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