Eu me lembro que queria loucamente completar 18 anos para poder dirigir. Tirar carteira de motorista foi emoção tão grande quanto passar no vestibular. Quando eu ganhei um carro, o mundo enfim era meu. Achava até difícil explicar em palavras a minha sensação de liberdade e onipotência quando eu ligava o meu Ford Ka, carinhosamente apelidado de besouro – bisôro, porque eu sou de Minas.
Desde o primeiro carro da história, o Model T de 1908 também da Ford, carros vêm sendo vendidos pra gente como símbolos de status e independência. Uma cápsula mágica, às vezes com som e ar condicionado, que você usa para ir e vir de qualquer lugar a hora que você quiser. Certo? Claro que não.
Bastam 5 minutos observando o trânsito pra gente perceber que todo mundo que tá ali paga uma pequena fortuna pro carro ficar parado – no trânsito ou na garagem – mais de 20 horas por dia.
Daí eu me pergunto: isso faz sentido, Brasil?
Assim que me mudei pra São Paulo ficou ainda mais claro que carro na enorme maioria das vezes é sinônimo de engarrafamento e muita despesa. Seguro, manutenção, IPVA, limpeza, estacionamento, combustível. Fora que carro, ao contrário do que muita gente acha, não é investimento. Enquanto usa, além de pagar todas essas despesas, você também arca com a desvalorização dele.
Por que então não transformar todo esse custo fixo em variável, poluindo menos e aliviando o trânsito da cidade? Afinal, a gente precisa do cd ou da música? Do dvd ou do filme? Do carro ou do deslocamento?
Uma estimativa da American Automobile Association diz que, em média, americanos e europeus gastam com o carro 18% do que ganham. Achei isso tão deprimente! Mais ainda quando você sabe que esse valor é maior que o que eles gastam com roupa, saúde e entretenimento JUNTOS! Me conta que tipo de vida é essa?
Não achei números brasileiros para comparar, mas não fica muito difícil ter uma ideia de quanto dinheiro alimenta a indústria automobilística se seguimos o raciocínio do Fábio Portela nesse post. Olha aí se você se identifica.
Dados ainda mais tristes? Li aqui que o cidadão paulistano gasta todos os dias nada menos que 2 horas e 40 minutos no trânsito. São 973 horas em um ano. Em uma vida, isso significa 7 anos. SE-TE A-NOS.
Ainda não tá satisfeito? Tem mais: Em junho passado o Brasil bateu seu recorde em vendas de automóveis: 300 mil novos veículos entraram em circulação. Nesse mesmo mês, mais um recorde: maior índice de congestionamento. De todas as vias de São Paulo, 35,4% ficaram completamente paradas. ‘Se formassem uma fila contínua, os carros ocupariam 295 km.’, conta essa reportagem.
COMO ASSIM tanta gente ainda não saiu dessa viagem errada? COMO PODE até hoje todo mundo viver o trânsito diariamente, chegar em casa, ligar a tv e acreditar em propagandas ridículas como essa?
Aham, Fiat, senta lá.
Eu já devo ter contado isso aqui mas vou repetir: não sou e nunca fui comunista, só tenho a sorte de ser inteligente. Pessoas também incomodadas com o trânsito, porém muito mais inteligentes do que eu, tiveram uma brilhante ideia: Por que não compartilhamos nossos carros?
Ao invés de cada criatura ter sua própria cápsula geradora de despesa e dor de cabeça, poderíamos todos ter a comodidade que o carro oferece sem todas as milhares de desvantagens que vêm no pacote! E assim foi criada a Zipcar, a maior empresa de carros compartilhados do mundo.
E depois dela várias outras vieram (Roubei daqui)
- Graziela, menina! Já ouvi falar desse esquema algumas várias vezes, mas até hoje não entendi bem como funciona.
Eu até contaria com minhas próprias palavras, mas a explicação do Hélio Mattar tá tão boa que eu vou copiar direto:
‘Tão simples quanto eficiente, o carro compartilhado fica disponível em estacionamentos estrategicamente localizados na cidade e pode ser alugado e devolvido em qualquer um deles. O usuário faz um cadastro, paga uma mensalidade ou anuidade, e recebe um cartão magnético que lhe dá acesso ao serviço. Passa o cartão tanto na retirada como na entrega do veículo e paga por hora ou quilômetro rodado. A conta é fechada mensalmente e debitada em cartão de crédito. Impostos, combustível, seguro e manutenção do carro correm por conta da locadora. O sistema funciona integrado com os outros modais de transporte, e os estacionamentos ficam próximos a estações de trem, metrô, bicicletários, terminais de barco e ônibus.’
Se ainda não ficou muito claro, a Zipcar fez um vídeo for dummies. Recomendo!
Só não vale ter preconceito com a pegada hipster.
Daí você pensou: mas isso jamais funcionaria no Brasil! Acha mesmo? Apresento-lhes Zazcar, a primeira empresa de carros compartilhados do país da América Latina!
Há quase dois anos São Paulo já conta com um sistema de carros compartilhados nos mesmos moldes do Zipcar. Mesmo com uma frota ainda bem pequena, – atualmente são 13 carros que atendem 300 pessoas – ninguém duvida que a procura por serviços como este não vai parar de crescer daqui pra frente.
No site eles disponibilizaram uma tabela legal que compara os custos de um carro compartilhado com os custos do taxi e de um carro alugado. O site traz também todas as respostas para as dúvidas mais frequentes.
Carros compartilhados fazem bem pro bolso, pro trânsito, pra saúde e pro meio ambiente mas ainda assim nenhuma dessas razões são usadas nas peças publicitárias da Zipcar.
A empresa, que de boba não tem nada, entendeu desde cedo o poder que os anúncios de carro têm sobre os pobres mortais e vem seguindo a receita à risca: os mesmos estímulos que as montadoras usam para nos fazer querer comprar são usados pela Zipcar para nos fazer querer compartilhar.
As peças são sempre objetivas e bem humoradas
O propósito é difundir a ideia de que quem usa sistemas de carro compartilhado é muito mais moderno, informado, inteligente e bem resolvido do que aquele tiozão que ainda tá achando bonito ir pro escritório montado na sua SUV.
O mais legal é que essa estratégia vem funcionando tão bem que a Zipcar não só tem clientes satisfeitos divulgando a empresa aos quatro ventos, mas clientes que se identificam com a marca e se sentem parte de uma comunidade, exatamente como clientes da Harley-Davidson ou da Ferrari, por exemplo.
Isso significa o início de uma mudança super importante nos nossos valores que pode – e deve! – levar a um futuro não muito distante, onde possuir um carro não seja sinônimo de mais poder, status ou liberdade pra ninguém.
Pra quem adora dados, seguem mais alguns: Cada carro compartilhado significa 8 carros a menos na rua. Pessoas que se desfizeram dos seus carros para aderir ao sistema da Zipcar passaram a economizar em média 600 dólares todo mês e reduziram suas emissões de CO2 pela METADE.
Depois de tanto falar de trânsito, vou aproveitar pra contar sobre um projeto maravilhoso, o Cidades para Pessoas.
A jornalista Natália Garcia selecionou 12 cidades pelo mundo e vai morar 1 mês em cada uma delas procurando em todas as esquinas respostas para a seguinte pergunta: Como tornar uma cidade melhor para seus habitantes?
Olha só a Natália explicando o projeto
Os detalhes estão todos aqui e você pode colaborar com essa história! Através do site de patrocínio coletivo – nem ideia de como se traduz crowdfunding! – Catarse.me, qualquer um doa qualquer quantia pra ver qualquer projeto querido virar realidade.
Sites como este estão pipocando aos montes nos últimos meses e isso tudo tá me deixando tãaaao feliz! Mas isso já é assunto para um outro post… ;]







No design de berço a berço não existe túmulo

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